Luciana Mendes, professora de 47 anos em Teresina, descobriu um nódulo na mama durante o exame de rotina oferecido pela campanha Outubro Rosa de 2025. O laudo indicou suspeita de malignidade. Em seis semanas, ela passou por biópsia, estadiamento e cirurgia no Hospital do Câncer de Barretos, para onde foi encaminhada pelo sistema público do Piauí. O tumor estava no estádio I. "A médica disse que se eu tivesse esperado sentir algo, poderia ter chegado no estádio III", conta Luciana.

A história dela é, ao mesmo tempo, um exemplo de sucesso e um retrato das desigualdades que persistem. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) coordena as políticas nacionais de prevenção e rastreamento, mas a capacidade de transformar diretrizes em exames realizados varia drasticamente entre regiões. Em alguns estados, a detecção precoce funciona como deveria. Em outros, a corrida contra o tempo ainda perde para filas, falta de equipamento e desconhecimento.

O que o INCA coordena

O INCA é a instituição responsável por formular e coordenar a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer, em articulação com estados e municípios. Suas diretrizes definem quais exames devem ser oferecidos pela atenção primária — mamografia para rastreamento de câncer de mama em mulheres de 50 a 69 anos, exame citopatológico para prevenção do câncer de colo do útero, entre outros. O instituto também produz as estimativas anuais de incidência — mais de 700 mil novos casos previstos para o biênio 2023–2025 — que orientam o planejamento nacional.

Mas coordenar não significa executar diretamente. A mamografia de Luciana foi realizada em uma unidade municipal de Teresina, financiada por verbas federais repassadas via SUS, mas dependente da gestão local para funcionamento de equipamentos, contratação de radiologistas e organização das filas. "O INCA define o rumo, mas quem pisa no acelerador ou no freio são os gestores de cada cidade", resume a Dra. Patrícia Lopes, epidemiologista que trabalhou em programas de rastreamento no Nordeste.

Representação visual das campanhas de rastreamento oncológico no Brasil

Campanhas que mobilizam — e que esfriam

Campanhas como Outubro Rosa (câncer de mama) e Novembro Azul (câncer de próstata) elevam a demanda por exames em períodos específicos. Dados do INCA mostram picos de mamografia em outubro e novembro, seguidos de quedas acentuadas nos meses seguintes. O efeito é duplo: por um lado, mulheres que nunca haviam feito o exame são mobilizadas; por outro, unidades de saúde enfrentam sobrecarga temporária que pode aumentar filas e atrasar resultados.

"A campanha funciona como um alarme que toca uma vez por ano", analisa o Dr. Fernando Rocha, mastologista no INCA. "O ideal seria um rastreamento contínuo, organizado, com convocação ativa das mulheres elegíveis — como fazem alguns países europeus. No Brasil, dependemos muito da iniciativa individual e de picos sazonais."

O ideal seria um rastreamento contínuo, organizado, com convocação ativa das mulheres elegíveis. No Brasil, dependemos muito da iniciativa individual e de picos sazonais.

Barreiras logísticas no interior

Fora das capitais, as barreiras se multiplicam. Equipamentos de mamografia quebrados sem previsão de conserto, falta de radiologistas para laudar exames, transporte precário para mulheres de zonas rurais e desconhecimento sobre a idade correta para iniciar o rastreamento. Em municípios pequenos, a mamografia simplesmente não existe — a paciente precisa se deslocar para a sede do distrito ou para a capital, o que pode significar perdão de trabalho, gasto com transporte e abandono do processo.

Luciana Mendes teve relativa facilidade: mora na capital, a unidade estava funcionando e o encaminhamento para Barretos, embora longo, seguiu o fluxo previsto. Sua colega de trabalho, em uma cidade a 180 quilômetros de Teresina, descobriu alteração semelhante em 2024, mas aguardou quatro meses por vaga de biópsia no hospital regional. Quando o diagnóstico foi confirmado, o tumor já estava no estágio II.

Avanços que aparecem nos dados

Nem tudo é estagnação. Dados recentes do Sistema de Informação do Câncer do Colo do Útero (Siscolo) e de registros regionais mostram avanços em estados que investiram em organização de fluxo. O Ceará e o Rio Grande do Sul, por exemplo, ampliaram a cobertura de citopatológico nas últimas duas décadas. O Maranhão, com apoio de programas federais, instalou novas unidades de mamografia em municípios do interior. O INCA monitora esses indicadores e publica relatórios que permitem comparar a evolução entre regiões.

A telemedicina emergiu como aliada na laudagem de exames de imagem. Em estados onde radiologistas são escassos, imagens de mamografia são transmitidas para laudo remoto por equipes em capitais. A solução reduz atrasos, mas depende de conectividade e de protocolos de qualidade que ainda estão em consolidação.

Colo do útero: o programa mais antigo

O rastreamento de câncer de colo do útero, baseado no exame citopatológico (Papanicolau), é o programa mais antigo e estruturado do país. Criado na década de 1990, cobre mulheres de 25 a 64 anos e tem metas definidas pelo INCA. Mesmo assim, a cobertura populacional adequada — mulheres com exame nos últimos três anos — ainda não atingiu a meta de 70% em escala nacional. As disparidades regionais são marcantes: regiões Sul e Sudeste com coberturas superiores a 60%, Norte e Nordeste frequentemente abaixo de 40%.

A introdução do teste de HPV como método primário de rastreamento, recomendado pelo INCA e incorporado em protocolos recentes, promete simplificar o fluxo e ampliar a cobertura. O teste pode ser coletado pela própria mulher em alguns contextos, reduzindo barreiras de acesso. A implementação em escala, porém, exige treinamento de equipes, aquisição de insumos e reorganização dos fluxos assistenciais — o mesmo desafio de sempre.

O que pacientes e gestores podem fazer

Para a população, o INCA mantém portal com informações sobre sinais de alerta, idade recomendada para rastreamento e mitos a serem desfeitos. A recomendação central: não esperar sintomas para buscar exames preventivos, e não se limitar a campanhas sazonais. Para gestores municipais e estaduais, os relatórios do instituto oferecem diagnósticos comparáveis que podem orientar investimentos — manutenção de equipamentos, contratação de profissionais, organização de fluxos entre atenção primária e serviços de referência.

Luciana Mendes retornou às aulas em março de 2026, após completar o tratamento adjuvante. Torna-se, agora, a principal divulgadora do rastreamento em seu círculo de amigas. "Eu tinha medo do exame, achava que doía muito. Perdi o medo e ganhei tempo", diz. O tempo que a detecção precoce pode dar — quando o sistema funciona — é o que o INCA tenta garantir para cada brasileiro, em cada canto do país. A corrida continua.

Retrato de Marcos Azevedo
Marcos Azevedo Jornalista especializado em saúde pública e epidemiologia. Doutorando em Saúde Coletiva pela UFRJ. Cobre políticas do INCA e rastreamento oncológico.