Antônio Ferreira, metalúrgico aposentado de 58 anos, nunca imaginou que uma tosse persistente levaria a uma fila de espera diferente daquela que conhecia no posto de saúde. Quando o diagnóstico chegou — câncer de pulmão não pequenas células, estádio IV —, seu oncologista no Hospital das Clínicas de São Paulo mencionou uma palavra que até então parecia reservada a quem tinha plano de saúde: imunoterapia.
A história de Antônio ilustra uma mudança silenciosa, porém significativa, na oncologia pública brasileira. Nos últimos dois anos, o Sistema Único de Saúde ampliou o acesso a inibidores de checkpoint imunológico — medicamentos como pembrolizumabe, nivolumabe e atezolizumabe — para subtipos específicos de câncer de pulmão avançado. Pacientes que antes dependiam de liminares judiciais, às vezes aguardando meses por uma decisão favorável, passaram a encontrar protocolos formalmente incorporados nas unidades de referência.
O que é imunoterapia e por que importa no pulmão
A imunoterapia oncológica não ataca o tumor diretamente, como a quimioterapia. Ela remove os "freios" que impedem o sistema imunológico de reconhecer e destruir células cancerígenas. No câncer de pulmão, essa abordagem transformou o prognóstico de uma parcela significativa de pacientes — especialmente aqueles cujo tumor expressa alta quantidade da proteína PD-L1, marcador que indica maior probabilidade de resposta.
O INCA estima cerca de 30 mil novos casos de câncer de pulmão por ano no Brasil. A maioria é diagnosticada em estágios avançados, quando a cirurgia curativa não é opção. Para esses pacientes, o tratamento sistêmico — quimioterapia, imunoterapia, terapia alvo ou combinações — define a trajetória clínica. A incorporação de imunoterapia ao SUS significa que uma ferramenta antes restrita ao setor privado passou a integrar o arsenal público.
As incorporações e o papel da CONITEC
Cada medicamento incorporado ao SUS passa por avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC), que analisa evidências de eficácia, custo-efetividade e impacto orçamentário. O pembrolizumabe, por exemplo, foi incorporado para câncer de pulmão não pequenas células com expressão de PD-L1 igual ou superior a 1%, em combinação com quimioterapia ou como monoterapia em casos selecionados. O nivolumabe e o atezolizumabe seguiram caminhos semelhantes, com indicações específicas por linha de tratamento.
"A incorporação é o primeiro passo, mas não resolve tudo", explica a Dra. Camila Nogueira, oncologista torácica no A.C. Camargo Cancer Center, que também atende pacientes encaminhados pelo SUS. "O medicamento precisa chegar ao hospital, o protocolo precisa ser implementado, a equipe precisa saber monitorar efeitos colaterais imunomediados — que são diferentes dos da quimioterapia. E o paciente precisa estar no lugar certo, com o exame certo, no momento certo."
A incorporação é o primeiro passo, mas não resolve tudo. O medicamento precisa chegar ao hospital, e o paciente precisa estar no lugar certo, com o exame certo, no momento certo.
Entre a incorporação e a farmácia do hospital
Antônio Ferreira teve sorte geográfica: mora na capital paulista e foi acompanhado no ICESP, onde o teste de PD-L1 foi realizado em duas semanas. Iniciou pembrolizumabe em combinação com quimioterapia em abril de 2026. "Me disseram que uma parte dos pacientes responde muito bem, que a tosse pode melhorar em poucas semanas", conta. "Mas meu cunhado, no interior do Paraná, teve que entrar com liminar para conseguir o mesmo medicamento. A incorporação existe no papel, mas a realidade dele era outra."
A disparidade entre centros é um dos gargalos mais citados por especialistas. Hospitais de referência em capitais — ICESP, Barretos, INCA — tendem a ter fluxos estabelecidos para imunoterapia. Em cidades menores, o oncologista pode saber que o medicamento está incorporado, mas enfrentar atrasos no fornecimento pela farmácia hospitalar, falta de exames complementares ou a necessidade de encaminhar o paciente para outra unidade.
Menos liminares, mais protocolos
Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que ações judiciais para obter medicamentos oncológicos de alto custo representam uma fatia expressiva das demandas contra o SUS. A incorporação formal de imunoterapias para câncer de pulmão reduziu, em alguns estados, o volume de liminares especificamente para esses medicamentos — embora o problema não tenha desaparecido para outras indicações e linhas de tratamento.
"Quando o protocolo existe e o hospital tem o medicamento, o advogado não precisa entrar na jogada", resume o Dr. Ricardo Almeida, que acompanha políticas de oncologia no Ministério da Saúde. "Mas ainda recebemos pacientes que chegam com o diagnóstico feito, sem PD-L1 testado, sem estadiamento completo, e aí o acesso atrasa por falha no processo assistencial — não por falta de incorporação."
Efeitos colaterais e monitoramento
A imunoterapia é geralmente melhor tolerada que a quimioterapia convencional, mas pode desencadear reações autoimunes — colite, pneumonite, hepatite, hipofisite — que exigem reconhecimento rápido e tratamento com corticosteroides. A equipe que prescreve precisa estar treinada para identificar esses eventos, o que reforça a concentração em centros de referência.
Antônio completou quatro ciclos sem intercorrências graves. A tosse diminuiu. A tomografia de controle mostrou redução das lesões. "O oncologista foi cauteloso: disse que responder bem ao início não garante resposta duradoura, que vamos acompanhar de perto", relata. "Mas pela primeira vez em meses, voltei a dormir a noite inteira."
O que ainda falta
Especialistas apontam desafios que vão além da incorporação. A testagem de biomarcadores — PD-L1, mas também alterações como EGFR e ALK, que indicam terapias-alvo em vez de imunoterapia — ainda é desigual no país. A concentração de expertise em grandes centros perpetua deslocamentos longos para pacientes do interior. E medicamentos incorporados para segunda linha ou para combinações específicas ainda geram disputas judiciais quando o protocolo local não contempla a indicação exata.
Para a Dra. Camila Nogueira, a prioridade é consolidar o que já foi conquistado: "Temos de garantir que a incorporação se traduza em acesso real em todos os estados, com testagem adequada, farmácia abastecida e equipes capacitadas. A imunoterapia no SUS deixou de ser exceção para câncer de pulmão — agora precisa deixar de ser privilégio geográfico."
Antônio Ferreira segue em tratamento no ICESP. Seu cunhado no Paraná, após meses de liminar, também iniciou o protocolo. Duas histórias, um mesmo medicamento, caminhos muito diferentes até a primeira infusão. A distância entre a política e a experiência do paciente — essa margem que a incorporação ainda não fechou — é o que continuaremos a acompanhar.